Ensino técnico: oportunidade estratégica para o futuro do Brasil
Enquanto a discussão sobre a reforma tributária mobiliza empresas e governos, outro tema também ganha relevância no debate sobre produtividade e crescimento: a expansão do ensino técnico. Desde 2023, estudos já apontavam que ampliar significativamente o número de vagas nessa modalidade poderia gerar impactos econômicos relevantes, próximos aos observados em reformas estruturais.
Ainda temos muito a construir e vale reforçar que apenas 13% dos estudantes do ensino médio no Brasil estão matriculados em cursos técnicos, diante de 41% na média da OCDE. Nos programas de estágio, a diferença também é grande: 2,6% no Brasil, contra 18% na média da OCDE, 27% na Alemanha e 33% na Noruega. Esse cenário mostra o espaço que ainda existe para avançar em qualificação e inserção produtiva.
Para Giuliano Amaral, CEO da Mileto, ampliar a base do ensino técnico é uma oportunidade estratégica. “O ensino técnico não é apenas uma alternativa educacional. Ele representa produtividade, mobilidade social e um caminho sustentável de crescimento para o país”, destacou durante o CONARH 2025.
Ele ressalta também que os estágios no ensino médio técnico podem tornar-se um diferencial na formação de um jovem em desenvolvimento. “Eles integram teoria e prática, fortalecem a preparação para a vida adulta e aproximam empresas de novos talentos. Ao ampliar esse modelo, conectamos estudantes a oportunidades em setores que já enfrentam escassez de profissionais qualificados”, completou.
A Mileto já apresenta resultados concretos. Em um ano, programas de estágio técnico envolveram mais de 30 empresas. Mais de 90% dos gestores declararam intenção de efetivar os jovens após o contrato. Cerca de 95% dos alunos vêm da rede pública, e estima-se que 80% vivam em famílias com renda de até cinco salários mínimos, o que amplia o alcance social.
O desafio do impacto em escala: A visão de Gisele Abrahão, CEO da GVA – Impactos Positivos, trouxe outro recorte. Educação e cultura concentram a maioria dos negócios de impacto, mas falta capital, parcerias genuínas e times estruturados para dar escala. “Não basta ter boas ideias. O ecossistema precisa de investimento, governança e escala para transformar boas intenções em mudanças reais”, afirmou.
Luis Fernando Guggenberger, diretor-presidente do Instituto Ultra, destacou a necessidade de ação mais próxima e liderança que vai além do discurso. Em 2022, o investimento social privado somou R$6,4 bilhões, com educação como principal destino. Mais de 80% das iniciativas já estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Mesmo assim, os indicadores seguem críticos. O Brasil ocupa a 65ª posição em matemática, 52ª em leitura e 62ª em ciências entre os 81 países da lista e 22% dos jovens de 15 a 29 anos não estudam nem trabalham. “Liderança social exige sair do escritório e pisar no barro. É preciso conhecer de perto as dores para transformá-las em soluções. Projetos sociais não podem ser periféricos, precisam estar no centro da estratégia empresarial”, afirmou Guggenberger.
O CONARH 2025 mostrou que responsabilidade social deixou de ser filantropia ou marketing: é uma agenda econômica e benéfica para todos. O futuro da competitividade brasileira depende da capacidade de empresas e lideranças assumirem papel ativo na formação de jovens e na inclusão produtiva. Como resume Giuliano Amaral, da Mileto: “Com o avanço da tecnologia e IA, mais do que nunca, formar pessoas é pilar central de empresas de sucesso”.

